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Perturbações do Comportamento Alimentar

O que é uma perturbação do comportamento alimentar?
Quem sofre de perturbações do comportamento alimentar?
Quais os factores de risco da Anorexia Nervosa e da Bulimia?
Quais são os sinais de aviso da Anorexia Nervosa?
Quais são os sinais de aviso da Bulimia?
Quais são as consequências médicas das perturbações do comportamento alimentar?
Como actuar perante uma situação de perturbação do comportamento alimentar?
10 conselhos para prevenir as perturbações do comportamento alimentar em contexto desportivo.
Que orientações para pais e educadores na prevenção dos perturbações alimentares?
Que tratamentos?
Leituras recomendadas


O que é uma perturbação do comportamento alimentar?
Uma perturbação do comportamento alimentar é um conjunto de hábitos alimentares; práticas de controlo de peso; atitudes sobre a alimentação, o peso e o corpo, acompanhadas de um desequilíbrio psicológico grave, resultado dessas mesmas práticas e atitudes.

A característica fundamental de uma Perturbação do Comportamento Alimentar é o excesso, o radicalismo de atitudes e de práticas tidas por normais e aceitáveis na nossa sociedade. Efectivamente, numa Perturbação do Comportamento Alimentar tais práticas passam a ser obsessões.

Assim, as Perturbações Alimentares são caracterizadas por:

- Descontrolo na ingestão de alimentos que se pode manifestar numa repentina perda de peso, num brusco aumento de peso ou em flutuações dramáticas do mesmo;
- Descontentamento com o próprio corpo, frequentemente associado a uma percepção distorcida da real forma corporal e dos “avisos” sobre ingestão do próprio corpo (fome e saciedade);
- Práticas de controlo do peso pouco saudáveis, designadamente uma quase ausência de ingestão de alimentos, voracidade incontrolável, indução do vómito, uso abusivo de laxantes e de diuréticos e prática excessiva de exercício físico;
- Medo irracional de engordar e um desejo muito forte de ser esbelto (magro).

Estas atitudes, comportamentos e desequilíbrios psicológicos têm como resultado:

- Ineficácia nos desempenhos dos papéis na família, na escola, no trabalho ou em qualquer outra actividade responsável;
- Sofrimento com as obsessões sobre o peso e a quantidade de alimentos ingeridos, consequente ansiedade no controlo dos mesmos, culpabilização, desespero e mudanças bruscas de humor;
- Alienação com isolamento e ansiedade nos contactos sociais, desistências dos mesmos, desconfiança e autocomiseração e por vezes auto-agressão.

O somatório destes indicadores constitui o retrato emocional dos doentes com Perturbações do Comportamento Alimentar que, quase sempre, têm limitada consciência do seu estado.

Quem sofre de perturbações do comportamento alimentar?
Qualquer pessoa pode desenvolver uma Perturbação do Comportamento Alimentar. Estes distúrbios alimentares podem atingir as pessoas oriundas de todas as camadas sociais, de todas as raças, de todos os graus de escolaridade e de ambos os sexos. Em geral, até à última década as Perturbações do Comportamento Alimentar ocorrem com muito mais frequência na classe média-alta e nas mulheres entre os 13 e os 30 anos.
As revistas da especialidade apontam a prevalência da anorexia nervosa e da bulimia em cerca de 5 a 10% da classe média-alta, com elevado grau de escolaridade.

Quais os factores de risco da Anorexia Nervosa e da Bulimia?
Educadores, professores, pais devem ficar de sobreaviso aos seguintes factores de risco:
- Adolescentes e jovens adultas da classe média-alta;
- A trabalharem ou a aspirarem trabalhar em actividades que privilegiam e enfatizam o estado de magreza do corpo (actores, modelos, bailarinas e desportistas);
- Tendo sido no passado gordas ou com excesso de peso o que originou com que enveredassem por uma prática reiterada ou frequente de dietas;
- História familiar de perturbações obsessivo-compulsivas;
- Pouca auto-estima, expectativa de grandes desempenhos, perfeccionismo (sempre exigindo fazer mais ou fazer o seu melhor obstinadamente), insegurança no relacionamento social, dificuldade em identificar e expressar sentimentos;
Concomitantemente são, ainda, traços característicos da personalidade:
Na Anorexia Nervosa: Grandes cautelas, medo de mudanças, hipersensibilidade e gosto pela ordem;
Na Bulimia: Impulsividade, desorganização, gosto por enfrentar situações de risco, preferência pelo novo e fácil desmotivação.

Outros Factores:
1. Famílias super protectoras e autoritárias ou desinteressadas e ausentes;
2. História de um trauma físico ou sexual ou de uma significativa relação traumática;
3. Grande discrepância entre a representação que querem que os outros tenham de si mesmos e a forma como eles próprios se sentem;
4. Dificuldade de identificar e/ou verbalizar sentimentos, particularmente a raiva.

Quais são os sinais de aviso da Anorexia Nervosa?
• Significativa ou extrema perda de peso sem causa médica aparente;
• Redução da quantidade de alimentos ingeridos;
• Desenvolvimento de comportamentos ritualizados à refeição como, por exemplo, cortar a comida em bocadinhos muito pequenos e mastigar cada bocado em grande número de vezes;
• Não assumir a fome;
• Tornar-se progressivamente mais crítico e menos tolerante com os outros;
• Prática excessiva de exercício físico;
• Só comer produtos alimentares magros e de baixo valor calórico;
• Achar-se sempre muito gordo mesmo quando isso está longe de ser verdade;
• Extremo auto-controlo;
• Não revelar os sentimentos.

Quais são os sinais de aviso da Bulimia?
• Arranjar desculpas para ir sempre à casa de banho depois das refeições (indução do vómito);
• Ter grandes variações de humor;
• Comprar grandes quantidades de comida que rapidamente desaparecem;
• Apresentar um inchaço anormal à volta dos maxilares;
• O peso apresenta oscilações normais;
• Comer frequentemente grandes quantidades de comida de forma compulsiva;
• Utilizar com frequência e em excesso diuréticos e laxantes;
• Inexplicável desaparecimento de comida no local de residência.

Quais as consequências médicas das perturbações do comportamento alimentar?

Anorexia Nervosa: Pode trazer problemas cardíacos, problemas renais, deterioração do tecido muscular, perda de massa óssea (osteoporose) e amenorreia (falta de menstruação).

Bulimia: Risco de desequilíbrio dos fluídos corporais, dentes apodrecidos, feridas na garganta, esófago e estômago, dependência de laxantes, inchaços nas faces e infecção das glândulas salivares por via das substâncias trazidas com a indução do vómito.

Como actuar perante uma situação de perturbação do comportamento alimentar?
  • Fale com a pessoa em privado e com tempo e disponibilidade para passearem a pé
  • Diga-lhe que está muito preocupado com ela
  • Diga-lhe calmamente o que de anormal tem observado no seu comportamento
  • Sublinhe os aspectos mais problemáticos, designadamente por comparação com comportamentos «normais»
  • Se a sua observação indicar estar em presença de uma Perturbação do Comportamento Alimentar diga à pessoa o que pensa
    - Diga-lhe que está preocupado com o seu bem estar e com a sua saúde
    - Diga-lhe que a situação tem de ser avaliada por um Técnico de Saúde
      experiente na matéria
  • Informe-se sobre os recursos existentes e a documentação a que pode recorrer
  • Informe imediatamente um Técnico de Saúde caso a pessoa apresente sintomas assustadores tais como:
    - vómitos frequentes e várias vezes ao dia
    - desmaios acompanhados ou não de dores no peito
    - fortes dores no estômago acompanhadas ou não de vómitos (grave
      se acompanhados de sangue)
    - alusões ao suicídio ou tentativa de suicídio
10 Conselhos no contexto desportivo para prevenir as perturbações do comportamento alimentar.
1. Instruir os treinadores de forma a que possam identificar uma perturbação do comportamento alimentar e consciencializá-los da importância do seu papel na prevenção destas doenças, visto que frequentemente são responsáveis por comportamentos alimentares errados.
2. Providenciar para que os atletas disponham de informação actualizada sobre controlo de peso, emagrecimento, composição corporal, nutrição e a sua relação com os resultados desportivos. Fornecer a mesma informação a todos aqueles que intervêm na formação dos atletas.
3. Sublinhar os grandes riscos que representa para a saúde um emagrecimento rápido, especialmente para as mulheres tendo como consequência períodos menstruais irregulares e amenorreia.
4. Apontar aos psicólogos e aos outros terapeutas cuja actividade se desenvolve no meio desportivo, o perigo do aparecimento de desequilíbrios emocionais em atletas que cronicamente estão em dieta e que têm comportamentos alimentares desviantes. O diagnóstico precoce da doença aumenta as possibilidades de cura.
5. A ênfase no peso deverá ser afastada do treino. Devendo salientar-se outras áreas cujo controlo é efectivamente mais influente na melhoria dos desempenhos desportivos.
6. Abandonar a ideia de que a redução do peso e da massa corporal aumentam a capacidade de desempenho dos atletas. Existem muitos estudos a demonstrar o contrário. E não se pode ignorar que muitos indivíduos respondem com uma perturbação do comportamento alimentar a uma perda de peso. Os resultados desportivos não podem pôr em risco a saúde dos atletas.
7. Compreender porque é que o peso é um problema tão sensível e tão penoso para muitas mulheres. Eliminar todos os comentários depreciativos acerca do peso.
8. Não retirar da competição um atleta que apresenta um distúrbio alimentar a não ser por indicação médica.
9. Aqueles que se encontram ligados ao desporto podem ter as suas opiniões e atitudes em relação ao peso, às dietas e à imagem do corpo e à forma como estes factores influenciam o atleta. No entanto não podem ignorar a imagem e a estima que o atleta tem por si próprio.
10. Considere preocupantes os sintomas descritos e acredite que as Perturbações do Comportamento Alimentar são comportamentos sérios e graves que fazem vítimas mortais. Efectivamente existe uma percentagem de 10 a 15 % de mortalidade com cerca de 2,5% destas mortes por suicídio.

Que orientações para pais e educadores na prevenção dos perturbações alimentares?
Não obstante as Perturbações do Comportamento Alimentar afectarem em maior grau a população feminina, ambos os sexos são atingidos , pois não podemos esquecer que os rapazes, tal como as raparigas, se preocupam com o peso.
O domicílio, a escola assim como os locais onde o exercício físico representa a actividade principal (por exemplo, ginásios) podem contribuir de forma relevante na detecção precoce dos sintomas da doença. Por esse facto a prevenção tem de ser um objectivo de todos.
• É importante que as refeições sejam tomadas com calma, pelo que deverá ser concedido ao jovem tempo suficiente para o efeito.
• Os jovens devem ser informados que existem factores genéticos a influir de forma determinante na construção do corpo. Assim devem ter conhecimento da obrigatória diversidade do corpo quer quanto à forma, quer quanto ao peso.
• Devem ser ensinadas regras quanto ao crescimento do corpo e quanto ao ganho de peso que este implica.
• Alerta geral aos jovens para os perigos das dietas.
• Os educadores têm um papel privilegiado no reforço e no acréscimo de auto-estima e de auto-aceitação dos jovens, podendo dotá-los de meios de resistência à pressão social sobre eles exercida para se tornarem «perfeitos».
• Urge desenvolver um programa para educadores a fim de os munir dos meios necessários para uma intervenção adequada na ajuda aos jovens com Perturbações do Comportamento Alimentar.

Que tratamentos?
Existem várias formas de tratamento, quer para a Anorexia quer para a Bulimia. Em geral associam-se medicamentos e diversas formas de psicoterapia ao nível individual e/ou familiar. Frequentemente é necessário um período de internamento nos pacientes anoréxicos, porém é raro que isso aconteça com os pacientes bulímicos. Estas perturbações tem um curso recorrente, dependendo a evolução, da gravidade da perturbação e da instauração precoce de um tratamento. Mais de 70% dos pacientes obtêm benefício relevante com tratamento médico-psicológico especializado.

Leituras recomendadas
Bouça, D (1997). Madrugada de Lágrimas. Porto. Edinter.
Carmo, I. (1994). A Vida por um Fio. Lisboa. Relógio d’ Água.
Carmo, I. (1997). Magros, Gordinhos e Assim Assim. Porto. Edinter.
Sampaio, D (1993). Vozes e Ruídos, Diálogos com Adolescentes. Lisboa. Editorial Caminho.
Sampaio, D (1994). Inventem-se Novos Pais. Lisboa. Editorial Caminho.
Sampaio, D (1998). Vivemos Livres numa Prisão. Lisboa. Editorial Caminho.

Para obter ajuda não profissional:
Associação dos Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos
afaab@ip.pt

Nota: Este texto foi adaptado do texto-base publicado em Cidade Médica Virtual
http://www.cmv.pt/

30 de Julho de 2003
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